O mercado de lácteos europeu atravessa uma semana marcada por volatilidade e sinais aparentemente contraditórios.
Enquanto os fundamentos apontam para um cenário de ampla oferta de leite, diversos produtos mantêm preços firmes ou até mostram impulso de alta, criando um ambiente de incerteza para compradores e vendedores.
Nos primeiros dias da semana, mais de 3.000 toneladas de produtos lácteos foram negociadas, mas sem uma direção clara. Queijos permanecem praticamente estáveis, embora em níveis elevados. O leite em pó desnatado continua demonstrando impulso de alta. Já a manteiga tem sido o retrato da volatilidade: sobe em um momento do dia, recua em outro, e volta a reagir horas depois.
Esse comportamento reforça uma tensão evidente no mercado. De um lado, os números de produção sugerem excesso de oferta. De outro, os compradores continuam ativos.
Liquidez e preços no mercado spot
Nos líquidos spot, o período pré-Páscoa costuma estimular alguma demanda adicional, mas os fundamentos ainda indicam fragilidade.
Os preços do leite cru na Holanda e na Alemanha permanecem ligeiramente acima de €0,12 por quilo. Na França, porém, a cotação caiu abaixo de €0,10, com relatos de captação em torno de €0,05.
O concentrado de leite desnatado mostra um descolamento ainda maior. Com o leite em pó desnatado negociado acima de €2.600, seria esperado um valor próximo de €2.000 para o concentrado. No entanto, vendedores têm dificuldade para encontrar compradores mesmo a €500.
Nesse cenário, o creme tem sido o principal ponto de sustentação. Impulsionado pela demanda de produtos frescos antes da Páscoa, o preço se mantém em torno de €5.250, relativamente forte em comparação com outros líquidos.
Produção de leite segue crescendo
Os dados mais recentes de captação na França mostram volumes equivalentes às semanas de pico do ano passado. Caso a tendência continue, os primeiros meses de 2025 podem terminar cerca de 4% a 6% acima do mesmo período do ano anterior.
Na Alemanha, os dados semanais também indicam crescimento. O país registrou o maior volume semanal de captação de leite já observado, mesmo com o pico sazonal ainda distante entre 10 e 12 semanas.
A produção de manteiga na União Europeia está 6,5% acima do ano anterior, ampliando ainda mais a disponibilidade de gordura láctea.
Fora da Europa, o cenário também é de expansão. Nos Estados Unidos, o rebanho leiteiro atingiu o maior tamanho já registrado, e a produção de leite por vaca também aumentou, mantendo o volume total elevado.
Manteiga: excesso físico, mas suporte financeiro
No caso da manteiga, os sinais de excesso de oferta são evidentes.
Armazéns frigorificados na Holanda já estão completamente ocupados, mesmo sendo apenas março. Instalações em outros países também estão enchendo rapidamente, levantando preocupações sobre capacidade de armazenamento antes do pico sazonal de produção.
Além disso, a capacidade de descongelamento para os próximos meses está praticamente comprometida. A expectativa é que traders utilizem estoques congelados para atender contratos enquanto congelam nova produção para substituir estoques mais antigos.
Apesar disso, os preços seguem surpreendentemente resilientes. Sempre que a manteiga recua, contratos futuros negociados na EEX acabam sustentando o mercado.
No dia analisado, a manteiga física para o segundo trimestre foi negociada a €4.675, enquanto os futuros indicavam cerca de €4.975. No segundo semestre, a diferença entre mercado físico e futuros chega a ultrapassar €300.
Queijo encontra ponto de equilíbrio
No mercado de queijos, um fenômeno curioso se consolidou: diferentes variedades convergiram para praticamente o mesmo preço.
Mozzarella, Edam, Gouda, Maasdam, Emmental e Cheddar estão sendo negociados em torno de €3.600 por tonelada. Algumas origens apresentam prêmios ou descontos, mas esse valor se tornou uma referência comum.
Há mais vendedores entrando no mercado, mas sem pressão significativa para reduzir preços.
Pós lácteos mantêm impulso
Se há um segmento claramente otimista neste momento, ele é o de pós lácteos.
Diversas referências de mercado apontam na mesma direção, com tendência de alta tanto para leite em pó integral quanto para proteínas lácteas.
Para o segundo trimestre, o leite em pó desnatado é indicado entre €2.550 e €2.700, dependendo da origem, embalagem e idade do produto. Já o leite em pó integral aparece entre €3.300 e €3.380.
Um mercado difícil de interpretar
A contradição central permanece. A produção mundial de leite cresce e os dados apontam para oferta abundante. Em teoria, isso pressionaria os preços para baixo.
Ainda assim, parte relevante do mercado continua mostrando força.
Para os agentes da cadeia láctea, o desafio é interpretar qual dessas forças prevalecerá nos próximos meses: a pressão da oferta crescente ou a demanda que, até agora, continua sustentando os preços.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Get Fair Dairy






