Uma cápsula do tempo escondida por cerca de 130 anos em um porão histórico de Frederiksberg, na Dinamarca, permitiu reconstruir parte da história da indústria leiteira do país.
Dentro de dois frascos havia um pó branco que, após análises realizadas por pesquisadores da Universidade de Copenhague, revelou ser uma cultura iniciadora utilizada na fabricação de manteiga no final do século XIX.
A descoberta vai além da curiosidade arqueológica. O conteúdo preservado mostra como a tecnologia aplicada aos laticínios já desempenhava um papel decisivo em um período em que a Dinamarca transformava sua produção agrícola e consolidava a manteiga como um dos pilares de sua economia.
Naquele momento, o país passava por uma profunda reorganização do setor agrícola. A adoção de cooperativas e de técnicas industriais modernas permitiu ampliar rapidamente a produção para atender à crescente demanda do mercado inglês, principal destino da manteiga dinamarquesa.
Os números registrados nesse processo ilustram a dimensão da mudança. As exportações passaram de pouco mais de 10 mil toneladas para cerca de 80 mil toneladas em apenas três décadas. Por volta de 1900, a manteiga já representava quase metade de todas as exportações da Dinamarca. A pasteurização foi um elemento fundamental dessa transformação, permitindo que o produto suportasse o transporte marítimo mantendo sua qualidade.
Mas o maior segredo estava justamente dentro dos frascos.
A análise de DNA identificou a bactéria Lactococcus cremoris, utilizada para produzir o sabor suave e a textura característica da manteiga. Segundo os pesquisadores, essa cultura iniciadora era adicionada após a pasteurização do leite para padronizar aroma e qualidade dos lotes, um fator que contribuiu para fortalecer a reputação internacional da manteiga dinamarquesa.
Ao mesmo tempo, a cápsula do tempo revelou que nem tudo era avanço tecnológico.
As análises microbiológicas encontraram também Cutibacterium acnes, bactéria associada à pele humana, e Staphylococcus aureus, um patógeno que evidencia que os padrões de higiene industrial de 1893 ainda estavam distantes dos protocolos adotados atualmente na indústria de alimentos.
Esse contraste transforma a descoberta em um retrato fiel da época: enquanto a tecnologia de fermentação já apresentava elevado nível de desenvolvimento, o controle da contaminação cruzada ainda enfrentava limitações impostas pelo conhecimento científico disponível naquele período.
Os dois frascos preservados em Frederiksberg tornaram-se, assim, muito mais do que objetos históricos. Eles oferecem aos pesquisadores uma rara oportunidade de reconstruir biologicamente como funcionava a produção de alimentos há mais de um século e compreender a evolução dos microrganismos utilizados pela indústria leiteira ao longo do tempo.
A descoberta conecta ciência, tecnologia e história em um único achado, mostrando que, às vezes, um pequeno recipiente esquecido pode preservar detalhes que documentos escritos jamais seriam capazes de revelar.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Fato Paulista






