O mercado de leite brasileiro chega à segunda metade de 2026 em um cenário marcado por forças opostas.
De um lado, a desaceleração da produção favorece uma recuperação gradual dos preços pagos ao produtor. Do outro, a inflação dos alimentos, o elevado endividamento das famílias, as importações competitivas e os riscos climáticos aumentam a incerteza sobre o comportamento da demanda e da oferta nos próximos meses.
A avaliação faz parte do relatório AgroInfo 2026, divulgado pelo Rabobank, que aponta uma mudança importante no ritmo do setor após o forte ajuste vivido em 2025. Segundo a análise, a menor expansão da oferta permitiu uma recuperação moderada dos preços ao produtor durante o primeiro semestre, criando um ambiente mais favorável para a rentabilidade da atividade.
Os números mostram essa transição. A produção de leite avançou 3,3% no primeiro trimestre de 2026, mas a expectativa é de apenas uma expansão marginal no segundo trimestre. Com isso, a projeção é que a captação formal encerre o ano próxima da estabilidade, em volume semelhante aos cerca de 27,5 bilhões de litros registrados em 2025.
A redução do ritmo produtivo teve reflexo direto nos preços. O leite entregue em abril foi remunerado a R$ 2,66 por litro, após iniciar o ano próximo de R$ 2,00 por litro. Ao mesmo tempo, os indicadores de rentabilidade acompanhados pelo MilkPoint Mercado mostram evolução da renda líquida, descontado o custo da alimentação, de R$ 23,30 por vaca ao dia em janeiro para R$ 36,40 por vaca ao dia em maio.
Apesar da melhora no campo, o comportamento do consumo passa a ser um dos principais pontos de atenção. O Rabobank estima crescimento de 1,8% da economia brasileira em 2026 e observa um mercado de trabalho relativamente aquecido. Ainda assim, o avanço da inflação, especialmente nos preços da energia e dos alimentos, tende a reduzir o poder de compra das famílias durante o segundo semestre.
O banco também destaca que o elevado nível de endividamento dos consumidores pode limitar as vendas de produtos lácteos, tornando a demanda mais sensível ao aumento dos preços.
Além do consumo, as condições climáticas entram no radar da cadeia leiteira. O relatório aponta a possibilidade de formação de um forte episódio de El Niño no fim do terceiro trimestre de 2026. Caso o cenário se confirme, o excesso de chuvas poderá afetar importantes bacias leiteiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, enquanto um clima mais seco nas regiões Sudeste e Nordeste poderá reduzir a disponibilidade de pastagens e limitar a produção nessas áreas.
Outro componente que influencia o mercado é o comércio internacional. Mesmo com a menor oferta doméstica, a expectativa do Rabobank é de que as importações de produtos lácteos permaneçam elevadas durante o segundo semestre. A combinação de preços internacionais estáveis, um real relativamente valorizado e cotações domésticas mais altas mantém competitivas as compras externas, ampliando a concorrência para a indústria nacional.
O relatório também identifica mudanças no perfil do mercado consumidor. Entre as tendências observadas está o crescimento da demanda por bebidas lácteas com elevado teor de proteína, segmento que deverá receber novos lançamentos ao longo da segunda metade do ano.
No campo, o estudo destaca que produtores com volume superior a 10 mil litros por dia continuam ampliando investimentos e registrando preços médios acima do restante do mercado, reforçando o processo de profissionalização da atividade.
Para o Rabobank, o restante de 2026 será marcado por um equilíbrio delicado. A desaceleração da produção tende a sustentar os preços pagos ao produtor, mas o comportamento do consumo, a inflação, as importações e os possíveis impactos climáticos do El Niño continuarão definindo os rumos do mercado de leite nos próximos meses.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Ciência do Leite






