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12 ago 2026
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🔥 O calor extremo está encarecendo um sistema financeiro construído há décadas sobre rodas de queijo.
🧀 Da produção de leite às contas de energia: veja como o calor extremo mexe com um negócio bilionário
🧀 Da produção de leite às contas de energia: veja como o calor extremo mexe com um negócio bilionário.

O calor extremo que tem batido recordes na Itália nos últimos verões está pressionando, com meses de atraso, um elo pouco visível — mas estratégico — da cadeia láctea do país: o sistema de crédito agrícola que usa rodas de Parmigiano Reggiano como garantia bancária.

O fenômeno começa no estábulo e termina nas contas de energia de grandes armazéns climatizados, revelando como uma onda de calor pode se transformar, tempo depois, em um problema financeiro concreto.

A cadeia de tensão tem início quando as temperaturas ultrapassam os 40 graus. Nessas condições, as vacas reduzem a ingestão de alimento e diminuem sua atividade, o que provoca uma queda de até 10% na produção de leite.

O impacto é ainda mais rígido porque a normativa que regula a elaboração do Parmigiano Reggiano permite produzi-lo apenas em cinco províncias italianas, com animais alimentados exclusivamente com forragem e feno cultivados na própria região — sem margem para compensar com insumos externos em temporadas de seca.

Esse primeiro elo já é sensível para uma produção que, em 2025, somou 4,19 milhões de rodas de Parmigiano Reggiano na Itália, com faturamento ao consumidor próximo a 4 bilhões de euros, segundo dados do Consórcio do Parmigiano Reggiano.

Mas o efeito do calor não para no tambo. Ele avança até um mecanismo financeiro que sustenta boa parte da economia leiteira da região de Emília-Romanha há mais de um século: os chamados “bancos de queijo”. Desde 1953, o banco Credito Emiliano (Credem) aceita peças de Parmigiano Reggiano recém-fabricadas ou ainda não maturadas como garantia de empréstimos.

Por meio de sua subsidiária Magazzini Generali delle Tagliate, a instituição custodia e faz maturar o queijo em instalações localizadas nas províncias de Reggio Emilia e Módena, onde atualmente guarda mais de meio milhão de rodas, avaliadas em mais de 300 milhões de euros.

O funcionamento é o seguinte: produtores de leite recebem entre 60% e 80% do valor de mercado de cada peça adiantado, já que o Parmigiano Reggiano precisa curar por um mínimo de doze meses — podendo chegar a vinte e quatro ou trinta e seis.

Esse período longo imobiliza recursos que produtores pequenos e médios nem sempre conseguem sustentar, o que os leva a recorrer ao crédito tendo o próprio queijo como respaldo. Se o produtor não consegue pagar o empréstimo, o banco tem o direito de confiscar e vender as peças.

Nos últimos anos, a incorporação de tecnologia blockchain permitiu que os produtores deixassem suas rodas como garantia sem precisar transportá-las até o armazém do banco, mantendo-as em suas próprias instalações — o que ampliou a capacidade de empréstimo das entidades que operam sob esse modelo.

É justamente nesse ponto que o calor extremo volta a pesar. Manter as rodas de queijo em temperatura estável durante todo o processo de cura, que pode se estender por até três anos, é a condição central desse sistema de garantias.

Segundo dados citados pela Euronews, o consumo diário de energia nas câmaras de armazenamento aumentou cerca de 30% durante o pico de calor registrado neste ano. O aumento forçou os bancos que administram esses depósitos a renovar sistemas de refrigeração e caldeiras, reforçar o isolamento térmico dos edifícios e ampliar a geração de energia renovável para manter as instalações funcionando.

O verão de 2026, aliás, desponta como um dos mais quentes desde que existem registros na Itália — o que antecipa que essa pressão sobre os custos energéticos pode se repetir e até se aprofundar nos próximos anos.

Como as peças permanecem armazenadas por até 36 meses antes de poderem ser vendidas, cada temporada de calor extremo eleva os gastos operacionais muito antes de o produto gerar qualquer receita, introduzindo um fator de incerteza em um negócio que historicamente era sinônimo de estabilidade.

Um documento de trabalho do Banco Central Europeu, publicado em março deste ano, ajuda a entender por que esse tipo de impacto costuma passar despercebido. O estudo concluiu que o efeito do calor extremo sobre o crescimento econômico é menor na Itália e na Espanha do que na Alemanha, já que as economias do sul da Europa estão mais adaptadas a temperaturas altas.

Porém, o próprio relatório alertou que esse número agregado moderado pode esconder perdas bem mais acentuadas quando cada elo da cadeia produtiva é analisado separadamente — exatamente o que ocorre no sistema de garantias que sustenta o Parmigiano Reggiano.

Especialistas em economia coincidem nesse ponto: os efeitos do calor extremo sobre cadeias produtivas como essa não aparecem de imediato, mas de forma indireta e ao longo dos meses.

O calor sentido nos primeiros elos de uma cadeia acaba gerando impactos mensuráveis na valorização de empresas situadas mais adiante nessa mesma cadeia — até que uma onda de calor no tambo se transforme, meses depois, em um problema de custos para uma instituição financeira.

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Infobae

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