ESPMEXENGBRAIND
12 ago 2026
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12 ago 2026
🥛 De bebês a atletas, um mesmo insumo lácteo ficou muito mais caro em poucos meses — e nem todo mundo vai sentir o impacto do mesmo jeito.
soro
📈 Um relatório do setor lácteo revela números que ajudam a explicar por que certos produtos podem custar mais nos próximos meses.

O preço do soro do leite está em rota de alta acelerada em todo o mundo, e o fenômeno já preocupa parte da cadeia láctea internacional.

Segundo dados da RaboResearch Food & Agribusiness, o soro em pó (cerca de 12% de proteína) passou de 900 euros por tonelada em outubro de 2025 para 1.320 euros em julho de 2026 — uma alta de 47% em nove meses.

Mas o salto mais expressivo ocorreu nos derivados de maior concentração proteica: o WPC80 (concentrado proteico de soro com 80% de proteína) saltou 120%, de 12.500 para 27.500 euros por tonelada, enquanto o WPI (isolado proteico de soro, 90% de proteína) subiu 59%, de 20.500 para 32.500 euros.

Ingrediente Out/2025 Jul/2026 Variação
Soro em pó (~12% proteína) €900/t €1.320/t +47%
WPC80 (80% proteína) €12.500/t €27.500/t +120%
WPI (90% proteína) €20.500/t €32.500/t +59%
Caseína ácida (95% proteína) €6.350/t €8.200/t +29%

Fonte: cotação oficial holandesa (soro em pó) e dados de traders (demais ingredientes), via RaboResearch

O que está por trás da alta

De acordo com Tom Booijink, especialista sênior em lácteos da RaboResearch para Europa e África, o movimento tem origem na febre do “proteinmaxxing” nas redes sociais e no aumento da demanda por saciedade entre usuários de medicamentos GLP-1, que buscam evitar a perda de massa muscular associada a esses tratamentos.

Mas o gargalo, explica Booijink, não está na disponibilidade do soro em si. “O principal gargalo do mercado não é a disponibilidade do soro, mas sim a capacidade de converter o soro líquido em ingredientes de alta proteína, como o WPC80 e o isolado proteico de soro.”

Produzir esses derivados exige tecnologias de ultrafiltração e microfiltração, que demandam investimento de capital elevado e conhecimento técnico especializado — capacidade que, hoje, é limitada. Essa é a razão pela qual os preços do WPC80 e do WPI subiram muito mais do que o soro em pó bruto.

Por que o soro é indispensável na fórmula infantil

O soro de leite não é um ingrediente qualquer para a nutrição infantil: é peça central da formulação. Enquanto o leite bovino tem uma composição proteica de aproximadamente 80% caseína e 20% soro, as fórmulas infantis buscam uma relação inversa, próxima de 40:60 (caseína:soro), para se aproximar do perfil do leite humano.

O professor Seamus O’Mahony, chefe da Escola de Ciências Alimentares e Nutricionais da University College Cork, explica que a proteína do soro contém aminoácidos essenciais, como o triptofano, fundamentais para o crescimento e desenvolvimento dos bebês. O ingrediente pode ser incorporado em diferentes formatos — soro desmineralizado, concentrado proteico de soro, isolado proteico de soro e proteína de soro hidrolisada.

O uso remonta aos anos 1960, quando a tecnologia de remoção de minerais do soro permitiu, pela primeira vez, o desenvolvimento de fórmulas com predominância de proteína de soro. Sem a desmineralização, o teor mineral seria alto demais para o metabolismo de um bebê.

Segundo O’Mahony, o soro desmineralizado é usado há mais de 60 anos na nutrição infantil e representa uma excelente fonte não só de proteína, mas também de lactose e nitrogênio não proteico para o crescimento do bebê.

Por isso, reduzir ou diluir a proporção de soro nas fórmulas não é uma opção para os fabricantes diante do custo mais alto. “A fórmula infantil é a única fonte de nutrição para bebês alimentados com fórmula e é uma categoria de produto altamente regulada — não apenas o teor total de proteína, mas o perfil de todos os aminoácidos essenciais é rigidamente controlado”, afirma O’Mahony.

Quem vai sentir mais o impacto

Apesar da importância do soro na fórmula infantil, Booijink avalia que o impacto sobre essa categoria específica tende a ser baixo a moderado — justamente porque o gargalo está mais concentrado nos derivados de alta concentração (WPC80 e WPI) do que no soro bruto usado em parte das formulações infantis.

Já as categorias de nutrição esportiva devem sentir o baque de forma mais direta, já que as proteínas de soro de alta concentração são componente central de muitos desses produtos. Historicamente, os fabricantes desse segmento conseguiram absorver parte dos aumentos de custo graças a margens relativamente saudáveis — mas, segundo Booijink, “há limites para até quando isso pode continuar”.

A nutrição para a terceira idade (antes chamada de nutrição para idosos) também está na mira, embora dependa um pouco mais de caseína e um pouco menos de soro do que a nutrição esportiva. A caseína também subiu de preço — a caseína ácida teve alta de 29% no período —, mas em ritmo menor que o soro.

O fator margem

Um dado chama atenção: a fórmula infantil é amplamente reconhecida como uma categoria de alta margem. Segundo Booijink, fontes públicas e relatórios anuais de empresas como Danone, Nestlé e FrieslandCampina mostram consistentemente que as margens na nutrição infantil são consideravelmente maiores do que em outras categorias lácteas.

Isso significa que o aumento no custo da matéria-prima não precisa, necessariamente, ser repassado ao consumidor final — tudo depende do poder de precificação e do posicionamento competitivo de cada fabricante.

Um relatório de 2025 da Competition and Markets Authority (CMA) do Reino Unido, no entanto, mostrou um cenário diferente: diferentemente de outras categorias de supermercado, há pouca pressão sobre fabricantes e varejistas para proteger os consumidores de aumentos nos custos de produção, que têm sido repassados rapidamente e por completo.

No Reino Unido, o custo da fórmula infantil chegou a subir 45% entre janeiro e março de 2026. Um estudo da Swansea University apontou que o encarecimento da fórmula infantil está levando famílias a se endividarem e adotarem práticas de alimentação que elas mesmas reconhecem como potencialmente prejudiciais aos bebês.

O que pode aliviar os preços

Diante desse cenário, o próprio relatório da CMA citou intervenções possíveis, como o tabelamento de preços. Booijink, porém, é cético quanto a essa saída. “Na minha visão como economista, tabelamentos de preço geralmente não são uma solução eficaz. Eles interferem na dinâmica normal de oferta e demanda do mercado”, afirma.

Segundo ele, os preços elevados de WPC80 e WPI já estão estimulando investimentos significativos em nova capacidade de processamento — investimentos que, ao longo do tempo, devem ajudar a aliviar as restrições de oferta. Um tabelamento artificial reduziria o incentivo a esses investimentos, prolongando o desequilíbrio.

Para Booijink, a expansão da capacidade de processamento é o caminho mais realista para uma futura queda de preços. “Em resumo: embora os preços mais altos do soro afetem a fórmula infantil, o maior impacto deve ser sentido nas categorias que dependem fortemente de proteínas de soro altamente processadas, como o WPC80 e o WPI.

O desafio fundamental hoje parece ser a capacidade de processamento, e não a disponibilidade de soro bruto.”

*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter

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