O Brasil é um dos maiores produtores de leite do mundo, mas continua dependente de importação para abastecer um dos segmentos que mais cresce dentro da cadeia láctea: o whey protein.
A mudança de hábito do consumidor, que passou a buscar mais proteína no dia a dia, transformou o soro — antes um subproduto de baixo valor na fabricação de queijo — em um dos ativos mais disputados da indústria.
O movimento tem explicação dupla. De um lado, a busca por alimentação mais saudável desde a pandemia; de outro, a popularização dos medicamentos injetáveis para emagrecimento, que aumentaram a demanda por proteína entre quem os utiliza. O resultado é que o whey deixou de ser insumo de barra e shake e passa a aparecer em snacks, chocolates, pães, vinhos e até cervejas.
A oferta não acompanhou. Segundo a StoneX, a tonelada do WPC80 (concentrado de proteína a 80%) saltou de cerca de US$ 10 mil no início de 2025 para US$ 28 mil em agosto de 2026. O WPI, com pelo menos 90% de proteína, subiu 47% no período e chegou a US$ 32 mil a tonelada, enquanto o WPC34, de menor concentração, avançou 40%.
“Foi uma combinação entre uma demanda que se acelerou e uma oferta que não conseguiu acompanhar esse aumento”, resume Juliana Torres Santiago, analista da StoneX.
O descompasso é estrutural. O Brasil produz mais de 35 bilhões de litros de leite por ano, segundo o IBGE, mas sua capacidade de transformar soro em ingredientes de maior valor agregado é limitada: cerca de 70% do WPC80 e do WPI consumidos no país vêm de fora, e o WPC80 importado chega ao mercado brasileiro a cerca de R$ 160 mil a tonelada, já com impostos e custos de importação.
“Há um descompasso entre o crescimento da demanda por proteína concentrada de soro e o crescimento da disponibilidade de soro como subproduto da produção de queijo. É um fenômeno mundial”, afirma Marcel de Barros, CEO da Tirolez.
A resposta da indústria já está em andamento. A Tirolez assumiu a planta do grupo Barbosa & Marques, em recuperação judicial, em Governador Valadares (MG), com capacidade de processar 480 mil litros de soro por dia e já operando no limite; a empresa arrenda a unidade desde 1º de julho, com a aquisição definitiva ainda condicionada ao processo judicial.
A Sooro Renner, que produz 8 mil toneladas anuais de WPC80 e 2 mil de WPI em suas plantas de Marechal Cândido Rondon (PR) e Estação (RS), decidiu em 2024 construir uma nova fábrica em Francisco Beltrão (PR), com investimento superior a R$ 1 bilhão, que deve dobrar sua capacidade atual e começar a operar no segundo semestre de 2027.
Seu CEO, Eduardo Serra, observa que o consumo de proteína deixou de ser restrito a quem frequenta academia e passou a incluir corredores, ciclistas e praticantes de crossfit — enquanto o custo da matéria-prima que compra de laticínios do Sul dobrou no último ano.
Outras empresas optam por integrar a produção. A Lactalis já processa o soro direto da fábrica de queijos de Três de Maio (RS), levado por tubulação em circuito fechado até a planta de WPC. “O consumo per capita de proteína do leite nos Estados Unidos ou em outros mercados com economia mais madura ainda é bem maior que o do Brasil”, diz Guilherme Portella, da Lactalis Brasil.
No mesmo caminho, o Grupo Piracanjuba investe mais de R$ 500 milhões em um complexo industrial em São Jorge d’Oeste (PR) que vai integrar queijo, manteiga, whey protein e lactose em pó, com capacidade projetada de 6 mil toneladas anuais de whey — a empresa não comentou o projeto.
O mercado de bebidas proteicas ainda é pequeno diante do total de lácteos: cerca de 80 milhões de litros por ano, frente a quase 500 milhões de litros de UHT tradicional, segundo a consultoria MilkPoint. Mas cresce acima de um dígito nos últimos anos, e Valter Galan, sócio da consultoria, nota que a falta de soro suficiente já leva novos projetos de fábricas de queijo a nascer com plantas de proteína de soro acopladas desde o início.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural






