Nem toda grande história começa com um plano. No Cariri paraibano, um queijo artesanal do Cariri nasceu justamente quando seu criador acreditava que tudo havia dado errado.
O que parecia um erro de fabricação acabou revelando um produto único, capaz de conquistar medalhas e transformar a trajetória do produtor Renato da Silva Brito.
À frente da Capril Encanto da Macambira, em São João do Cariri, Renato percorreu um caminho marcado por dificuldades antes de alcançar reconhecimento em concursos especializados, entre eles a ExpoQueijo Brasil, realizada em Minas Gerais. Mas a origem dessa história está muito antes dos prêmios.
Nos primeiros anos dos anos 2000, ele fornecia leite de cabra para um programa do Governo do Estado. A rotina, porém, era desafiadora. A distância até a cidade e os atrasos no recebimento faziam com que parte da produção azedasse antes da entrega, gerando perdas e colocando em risco o trabalho da propriedade.
Foi dessa necessidade que surgiu a ideia de buscar uma alternativa para agregar valor ao leite. Em 2016, Renato participou de sua primeira capacitação para fabricação de queijos, realizada em Coxixola. Com recursos limitados, começou produzindo queijo branco e queijo com calabresa utilizando formas improvisadas.
Sem um mercado estruturado para vender os produtos, escolheu outro caminho: distribuir os queijos entre amigos. A estratégia informal permitiu que o boca a boca fizesse seu trabalho. Aos poucos, o interesse cresceu e o produtor percebeu que havia espaço para seguir investindo na atividade.
A virada definitiva aconteceu apenas alguns anos depois. Em 2021, durante uma nova capacitação promovida em Cabaceiras por meio da Embrapa, Renato tentou reproduzir um queijo apresentado por um Mestre Queijeiro. O resultado, entretanto, ficou completamente diferente do esperado.
Convencido de que havia fracassado, pensou até mesmo em descartar a produção. Antes de tomar essa decisão, deixou o queijo maturando por alguns dias e resolveu experimentá-lo. A surpresa veio logo na primeira prova: o sabor agradou quem experimentou.
Ele enviou uma fotografia do queijo ao mestre responsável pelo curso. Segundo Renato, a resposta foi inesperada. O especialista afirmou que o resultado lembrava o Queijo Serra da Estrela e chegou a dizer que aquele produto poderia conquistar medalha de ouro no primeiro concurso em que fosse inscrito. Foi exatamente o que aconteceu.
Mesmo inspirado em técnicas apresentadas durante a capacitação, Renato decidiu que o queijo precisava carregar a identidade do lugar onde nasceu. A sugestão veio de um amigo: transformar o produto em uma expressão do Cariri. Assim surgiu o Queijo Macambira.
Outra característica que ajudou a construir essa identidade apareceu naturalmente durante a maturação. O surgimento de um mofo azul preocupou inicialmente o produtor, que temeu algum risco para a saúde. Após conversar com uma professora, recebeu a orientação de que não havia problema.
Com o tempo, o fenômeno passou a ser visto como uma marca do próprio território. Segundo Renato, o clima da região e a alimentação das cabras contribuem para essa característica, que lembra o gorgonzola, embora apresente intensidade diferente.
O processo de maturação também permanece simples e totalmente natural. O queijo passa alguns dias secando na forma. Depois é embalado e, cerca de dez dias mais tarde, começam a surgir pequenos pontos acinzentados. Em aproximadamente trinta dias, toda a superfície está coberta. Renato destaca que não utiliza qualquer tipo de penicilina para provocar esse desenvolvimento.
Hoje, além do reconhecimento conquistado em concursos especializados, o queijo desperta a curiosidade de visitantes que chegam ao Sítio Macambira. Para o produtor, ver turistas valorizando um alimento que nasceu das características do próprio Cariri representa mais do que um sucesso comercial. É a confirmação de que a região pode construir sua própria identidade a partir dos recursos que possui.
Essa é, segundo Renato, a principal mensagem deixada por sua trajetória: mostrar que o Cariri é capaz de transformar sua realidade valorizando aquilo que produz.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Paraíba On Line






