O mercado futuro do leite começou a ser apresentado aos produtores brasileiros como uma alternativa para enfrentar a volatilidade dos preços e aumentar a previsibilidade da receita da atividade.
A iniciativa, que já desperta interesse no Paraná, ainda está em fase de disseminação, mas pode representar uma nova ferramenta de gestão para propriedades que buscam maior segurança no planejamento financeiro.
A proposta segue uma lógica já conhecida em outras commodities agropecuárias. Em vez de esperar o comportamento do mercado até o momento da venda, o produtor pode negociar contratos para uma data futura com preços previamente definidos, utilizando um mecanismo de proteção conhecido como hedge. A comercialização ocorre no mercado de balcão (OTC), sem negociação em bolsa, e não modifica a venda física do leite.
No Paraná, a Capal iniciou um trabalho de orientação sobre o funcionamento desse instrumento. Segundo o coordenador de Pecuária Bovinos da cooperativa, Dinarte Garrett, o objetivo é que os produtores compreendam a ferramenta antes de utilizá-la.
Para ele, o mercado futuro pode funcionar como uma espécie de proteção em períodos de grande oscilação dos preços, oferecendo mais segurança para decisões de investimento dentro da propriedade. Ainda assim, a adoção acontece com cautela. A cooperativa informa que ainda não possui cooperados operando contratos futuros, embora exista um número crescente de interessados.
A Capal comercializa cerca de 12 milhões de litros de leite por mês provenientes de produtores do Paraná e de São Paulo. A produção abastece as unidades industriais do grupo Unium localizadas em Castro e Carambeí, no Paraná, além da planta de Itapetininga, em São Paulo.
Apesar do interesse crescente, muitos produtores ainda demonstram dúvidas sobre a novidade.
O produtor Wilko Laurens Verburg, de Arapoti (PR), afirma que conhece a proposta apenas de forma superficial e ainda não possui informações suficientes para avaliar sua utilização. Na propriedade, onde são produzidos cerca de 19 mil litros de leite por dia com 460 vacas em ordenha mecanizada, a preocupação continua sendo manter eficiência produtiva diante da expectativa de novas oscilações nos preços.
A produtora Ellen Biersteker, também de Arapoti, vê potencial na ferramenta, mas considera o tema complexo. Segundo ela, a principal dificuldade da atividade leiteira é produzir durante todo o mês sem conhecer exatamente o valor que será recebido pela produção. Para Ellen, qualquer instrumento que aumente a previsibilidade da rentabilidade merece atenção, especialmente em uma atividade marcada pela perecibilidade do produto. Sua propriedade produz aproximadamente 11,4 mil litros de leite por dia com 380 vacas em lactação.
A ferramenta foi lançada pela consultoria StoneX Leite Brasil, com apoio do Cepea/Esalq-USP e da CNA. No Paraná, o Sistema Faep também participa das ações de divulgação junto aos produtores.
Segundo Marianne Tufani, consultora em gestão de riscos da StoneX, o principal desafio neste momento é explicar o funcionamento do mercado futuro e desfazer a percepção de que se trata de um modelo complexo. A empresa vem apresentando a solução para produtores, cooperativas e indústrias em diferentes regiões do país, e a expectativa é de que os primeiros contratos sejam fechados nas próximas semanas.
Na liquidação dos contratos, são utilizados indicadores do Cepea referentes ao leite UHT Sudeste, queijo muçarela Sudeste e leite em pó industrial de São Paulo. O lote mínimo corresponde a 40 mil litros de leite, mas a possibilidade de contratação por meio de cooperativas e laticínios pode permitir a participação de produtores com menor volume de produção.
Segundo a consultora, a ferramenta foi criada para oferecer respostas ao aumento da volatilidade dos preços e à dificuldade de previsibilidade da atividade. Entre os benefícios apontados estão a possibilidade de antecipar decisões, planejar investimentos, ampliar a escala de produção e fortalecer a sustentabilidade financeira das propriedades no longo prazo.
Para o produtor, a principal mudança não está na forma de vender o leite, mas na possibilidade de administrar melhor o risco de preços. O Paraná passa a ocupar posição de destaque nesse processo ao concentrar iniciativas de capacitação e difusão de uma ferramenta que pode ampliar as opções de gestão econômica da atividade leiteira.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Globo Rural






