O leite de camela deixou de ser um produto associado apenas a regiões desérticas e passou a ocupar um lugar de destaque no radar do agronegócio mundial.
Apelidado de “ouro branco” por produtores e entusiastas, o alimento hoje combina tradição pastoril, tecnologia de ordenha e apelo nutricional em uma cadeia que cresce em ritmo acelerado.
Os números ajudam a entender o fenômeno. Segundo a FAO, a população global de camelos já supera 41 milhões de cabeças, com o Quênia liderando a produção mundial de leite de camela, seguido por Somália e Paquistão.
Um documento do Codex Alimentarius, ligado à FAO e à Organização Mundial da Saúde, aponta que a produção global de leite cru de camela chegou a 4,116 milhões de toneladas em 2022 — e o avanço do comércio internacional tem exigido padrões cada vez mais rígidos de qualidade, segurança e rotulagem.
É justamente esse salto comercial que transformou fazendas antes rústicas em estruturas de alta tecnologia. Nos Emirados Árabes Unidos, a marca Camelicious nasceu de pesquisas iniciadas em 2003, com uma unidade concluída em 2006, e hoje opera com mais de 6 mil camelos em um sistema integrado de produção.
Já na Somália, a Beder Camel Farm, próxima a Mogadíscio, apostou em assistência veterinária, melhor alimentação e práticas higiênicas de ordenha — uma reportagem da Associated Press mostrou que, com essas mudanças, cada camela da fazenda chega a produzir até 10 litros de leite por dia, o dobro do rendimento obtido com métodos tradicionais.
O apelo nutricional é outro fator que impulsiona o interesse global. Análises publicadas na base científica PMC indicam que o leite de camela pode conter entre 3,0 e 7,5 mg de vitamina C por 100 g, enquanto o leite de vaca apresenta entre 0,8 e 2 mg por 100 g.
O documento do Codex também destaca a ausência de beta-lactoglobulina — proteína associada a alergias ao leite bovino — e uma maior presença de beta-caseína, características que podem favorecer a digestibilidade.
Ainda assim, é preciso cautela: o leite de camela não é livre de lactose, com teores que variam de 3,3% a 5,8%, contra 4,8% a 4,9% no leite de vaca, e pessoas com intolerância devem avaliar a tolerância individual com orientação profissional.
A composição, aliás, varia conforme raça, alimentação, manejo, região, estação do ano e fase de lactação — por isso, afirmar que o produto é “mais nutritivo” que o leite bovino exige cuidado, já que ele se destaca em componentes específicos, mas não substitui automaticamente o leite de vaca em todos os critérios.
Esse conjunto de atributos abriu caminho para o produto entrar em categorias de maior valor agregado, como leite pasteurizado, leite em pó, iogurtes, bebidas fermentadas, sorvetes e até cosméticos.
Um relatório da Grand View Research estimou o mercado global de produtos de leite de camela em US$ 14,3 bilhões em 2024, com projeção de alcançar US$ 24 bilhões até 2030 — um crescimento médio anual de 9,4% entre 2025 e 2030. O Oriente Médio e a África, juntos, concentraram 58,9% da receita global registrada em 2024.
Há ainda uma dimensão ambiental por trás desse crescimento. Em regiões áridas, os camelos se destacam por resistir ao calor, à escassez de água e a longos períodos de pastagem limitada, o que os torna uma alternativa estratégica onde a bovinocultura sofre com estiagens severas.
Não por acaso, a Organização das Nações Unidas declarou 2024 como o Ano Internacional dos Camelídeos, reconhecendo o papel desses animais na segurança alimentar, na renda de comunidades rurais e no uso sustentável de ecossistemas áridos e semiáridos.
Apesar de todo o avanço, o leite de camela ainda está longe de se tornar uma commodity global como o leite de vaca. A produção depende de rebanhos específicos, manejo especializado, logística refrigerada e padrões sanitários consistentes, e boa parte do consumo segue concentrada em mercados locais e informais.
Mesmo assim, a trajetória é clara: o que era tradição regional caminha para se firmar como um produto global de alto valor, mostrando que o agronegócio pode encontrar oportunidade não apenas em produzir mais do mesmo, mas em transformar culturas alimentares antigas em cadeias modernas e rentáveis.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Compre Rural






