O avanço dos queijos do Paraná e de Santa Catarina em premiações internacionais deixou de ser apenas uma vitrine gastronômica.
O movimento sinaliza uma transformação mais profunda na cadeia leiteira do Sul do Brasil, baseada em diferenciação, valor agregado e profissionalização técnica da produção.
Na 4ª edição do Mundial do Queijo do Brasil, realizada em São Paulo, Santa Catarina conquistou o principal prêmio da competição com o queijo Reserva do Vale, da Queijos Possamai, de Pouso Redondo. O resultado consolidou uma sequência relevante para o estado, que já havia alcançado o topo da edição anterior com o queijo Morro Azul, da Vermont Queijos Especiais, de Pomerode.
Ao mesmo tempo, o Paraná ampliou sua presença entre os produtos de maior reconhecimento técnico. Quatro queijos do estado receberam o selo “Super Ouro”, nível máximo da premiação, concedido a produtos com pontuação próxima da perfeição.
Mais do que os prêmios em si, os resultados evidenciam um modelo de produção apoiado em controle de processo, identidade territorial e maturação longa. O clima mais frio e úmido do Sul aparece como uma vantagem competitiva para curas mais estáveis e desenvolvimento sensorial mais refinado.
Os exemplos apresentados pelas queijarias reforçam essa lógica. O Reserva do Vale foi desenvolvido para expressar o terroir da fazenda da família Possamai, no Alto Vale do Itajaí. O queijo permanece cerca de 12 meses em maturação e utiliza leite processado logo após a ordenha, além de fermentos específicos que favorecem o desenvolvimento de cristais de tirosina e notas de amêndoas e caramelo.
No Paraná, a estratégia também passa pela diferenciação técnica. O queijo Abaporu, da Queijaria Flor da Terra, utiliza madeiras aromáticas nativas durante a maturação. Já o Vale do Heimtal, da Queijaria Deleite, permanece um ano maturando em condições específicas de umidade e temperatura ligadas ao terroir local.
A construção desse novo posicionamento não depende apenas de tradição artesanal. O texto mostra uma cadeia mais estruturada, apoiada em assistência técnica, rastreabilidade, certificação sanitária e pesquisa aplicada.
O Paraná, segundo maior produtor de leite do Brasil, utiliza essa base produtiva para ampliar a fabricação de itens de maior valor agregado. O modelo de formação de queijeiros desenvolvido pelo Biopark em parceria com o IDR aposta justamente na profissionalização da produção rural. O objetivo é permitir que famílias produtoras avancem para produtos que podem alcançar até três vezes o valor de um queijo convencional.
O avanço da certificação também aparece como peça estratégica. A Queijos Possamai atribui ao Sisbi-POA parte da ampliação comercial da empresa, citando melhoria de processos internos, expansão da distribuição e maior padronização da operação.
Outro ponto relevante é que o reconhecimento internacional deixa de estar concentrado apenas em Minas Gerais, tradicional referência da queijaria brasileira. Paraná e Santa Catarina passam a ocupar espaço próprio na construção de uma identidade premium ligada ao leite, à maturação e à origem territorial.
O movimento também reforça uma tendência importante para a cadeia láctea: a busca por produtos capazes de capturar mais valor sem depender exclusivamente de escala. Nesse contexto, terroir, controle técnico e narrativa de origem deixam de ser elementos acessórios e passam a integrar a estratégia econômica das pequenas e médias queijarias.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Tribuna






