O mercado brasileiro de sorvetes movimenta mais de R$ 14 bilhões por ano e reúne cerca de 11 mil empresas no país — e boa parte dessa engrenagem depende diretamente do leite como matéria-prima.
As projeções apresentadas na primeira edição da Jornada Davipan, realizada em julho no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, apontam um crescimento de até 50% para o setor até 2033, um horizonte que coloca a produção de sorvetes como um dos destinos relevantes do leite nacional nos próximos anos.
O evento, que integrou pela primeira vez os segmentos de panificação, confeitaria e gelados comestíveis, trouxe um dado que interessa diretamente à cadeia láctea: os consumidores estão pedindo formulações diferentes, e isso já está mudando o tipo de insumo que a indústria de sorvetes busca.
Segundo pesquisa Mintel/Kantar apresentada no painel Fórum 360 — promovido pela DR Aromas e Ingredientes em parceria com a Selecta Specialità —, 87% dos consumidores priorizam ingredientes reconhecíveis (rótulo limpo), 84% valorizam apelos funcionais e 81% procuram produtos com proteína adicionada.
“Hoje a saudabilidade ganhou protagonismo. Os consumidores querem saúde com sabor no mesmo alimento. A indulgência permissiva é a nova tendência de mercado: a pessoa se permite comer um doce, desde que este produto traga ingredientes melhores”, explica Alessandra Carneiro, gerente de marketing de sorvetes da DR Aromas e Ingredientes.
Essa busca por saudabilidade já se traduz em reformulação de produto. Vagner Paulo Ribeiro, mestre sorveteiro e representante comercial da DR Aromas e Ingredientes, conta que a empresa investiu em novos ingredientes para reduzir a gordura do sorvete: “Conseguimos tirar do produto o selo de ‘alto em gordura saturada’ e mostrar que podemos fazer sobremesas mais saudáveis. Essa é uma tendência que veio para ficar e estamos investindo nesse mercado há 10 anos.”
Para quem está na ponta da produção, o dado de consumo mais relevante talvez seja este: o sorvete de pote (massa) e o consumo direto em sorveterias respondem juntos por 69,6% das compras no Brasil, com chocolate, morango e creme ainda como sabores líderes.
O especialista Eduardo Coutinho, que comandou uma palestra sobre o comportamento da Geração Z, lembrou que a inovação tem limites práticos dentro do ponto de venda: “60% do menu de uma sorveteria ainda precisa ser composto por sabores líderes. O chocolate é o sabor que mais vende, e combiná-lo com outro ingrediente é uma forma de despertar a curiosidade do público, especialmente dos jovens que buscam sobremesas instagramáveis.”
O clima também entra na conta da demanda. O fenômeno El Niño promete um verão com temperaturas acima da média em cidades como Curitiba, no Sul do país — um fator que tende a aquecer ainda mais o consumo na temporada mais forte do setor.
Mas o desafio inverso, a queda de vendas no inverno, também apareceu no evento como ponto de atenção. Soluções como o affogato e combinações de sorvete com vinho foram apresentadas como caminhos para manter o consumo ativo nos meses frios, sob a lógica de que “o frio não muda o desejo, muda o contexto”.
Andrea Lopes Caneviski, da Sorveteria Fabiana, de Colombo (PR), avaliou a iniciativa: “Estão expondo as novidades e trazendo ideias para a época do inverno, quando as vendas caem bastante. Toda ideia nova traz uma injeção de ânimo para o negócio.”
Há ainda uma mudança de escala que impacta diretamente o tipo de embalagem — e, por consequência, os volumes processados. Com a média de moradores por lar no Brasil caindo para 3 pessoas, e 18% dos lares formados por apenas um habitante, cresce o fenômeno da “snackfication”: o consumo de sorvete em pequenas porções, como um lanche rápido, o que tem impulsionado embalagens menores e mais funcionais.
Do lado da produção, o Paraná aparece como um polo relevante para quem acompanha a cadeia láctea regional. O estado é o 4º que mais emprega no setor de gelados comestíveis no Brasil, responde por 9,78% do volume nacional produzido, e concentra suas indústrias principalmente em Curitiba, Londrina e Maringá. É também um setor pulverizado: 96% das empresas do ramo são micro e pequenas, enquadradas no Simples Nacional.
Fátima Yae, sócia da Davipan e idealizadora da Jornada Davipan, explicou o propósito do encontro: “A Jornada Davipan nasceu da experiência construída ao longo dos anos em nosso Centro de Treinamento. Não existe hoje no Paraná um evento com esse formato, reunindo conteúdo, relacionamento, experiências e grandes referências do mercado em um único ambiente.”
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Aditivos & Ingredientes






