A febre aftosa em Lesbos já atinge 22 fazendas e altera o funcionamento da cadeia láctea na ilha grega, com impacto direto sobre logística, preços e destino da produção.
O avanço do surto, confirmado desde 15 de março, levou à imposição de restrições sanitárias e à paralisação parcial do escoamento, criando um ambiente de incerteza para produtores de leite e derivados.
O foco da doença está concentrado no nordeste da ilha, dentro de um raio aproximado de 4 km no município de West Lesbos, abrangendo vilarejos como Pelopi, Napi e Mantamados. Os casos envolvem principalmente sistemas mistos, com presença de bovinos, ovinos e caprinos na mesma propriedade. Entre as 22 fazendas infectadas, 10 tinham bovinos, sendo que apenas uma era exclusivamente bovina. A maioria operava com rebanhos combinados, o que amplia a complexidade sanitária. Todos os animais das propriedades infectadas estão sendo abatidos e enterrados no local.
Esse padrão produtivo, baseado em unidades pequenas e familiares com múltiplas espécies, atua como mecanismo de propagação e, ao mesmo tempo, de amplificação dos efeitos econômicos. Mesmo produtores não infectados enfrentam dificuldades crescentes para manter suas operações. Embora tecnicamente possam seguir fornecendo leite a queijarias, barreiras adicionais como exigências sanitárias, registros e hesitação do mercado tornam o fluxo irregular e pressionam os preços.
O bloqueio do porto de Mytilini por produtores, em protesto por compensações, agrava o cenário logístico. O porto é um ponto estratégico de conexão, inclusive com a Turquia, e sua paralisação não apenas restringe o escoamento de produtos agropecuários como também começa a afetar outras atividades econômicas, como o turismo. O impacto deixa de ser apenas sanitário e passa a ser sistêmico.
No caso dos ovinos, a situação é ainda mais crítica. A impossibilidade de envio para abate, devido ao fechamento de frigoríficos, obrigou a absorção local de um volume significativo de animais. Durante o período da Páscoa, cerca de 70.000 ovinos tiveram de ser abatidos e consumidos na própria ilha. Esse desvio forçado de mercado altera o equilíbrio entre oferta e demanda e reforça a pressão sobre os preços.
Há ainda sinais de que o vírus pode ter circulado antes da detecção oficial, com base na identificação de anticorpos. A característica clínica do sorotipo SAT 1, descrita como frequentemente leve ou assintomática em ovinos, pode ter contribuído para essa disseminação silenciosa inicial, dificultando a contenção precoce.
Um quadro semelhante é observado no Chipre, onde 71 fazendas já testaram positivo desde 19 de fevereiro, também com predominância de ovinos e sistemas mistos. Os casos concentram-se em uma área próxima à fronteira com a parte turca da ilha, dentro de um raio de 20 km, reforçando um padrão regional de ocorrência.
O que muda para a cadeia láctea é a combinação de restrição sanitária, desorganização logística e perda de previsibilidade comercial. A interdição de fluxos, mesmo que parcial, reduz a capacidade de monetização da produção e amplia o risco de deterioração de produtos perecíveis. Ao mesmo tempo, a resposta sanitária baseada em abate total elimina rapidamente ativos produtivos, exigindo reposição futura.
O caso evidencia como surtos localizados podem gerar efeitos amplificados quando coincidem com sistemas produtivos fragmentados e cadeias logísticas dependentes de poucos pontos de saída.
*Escrito para o eDairyNews, com informações de Dairy Global






