O tarifaço dos Estados Unidos ainda nem havia entrado em vigor e já começava a cobrar seu preço da indústria brasileira de alimentos.
Entre janeiro e junho de 2026, as exportações do setor para o mercado americano somaram US$ 2,31 bilhões, uma queda de 16,9% em relação aos US$ 2,78 bilhões movimentados no mesmo período de 2025. O dado é da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) e antecipa um problema: se a retração já é significativa antes da aplicação da tarifa adicional de 25% anunciada pelo governo americano, o que vem depois pode ser pior.
É esse o alerta que a entidade faz. Para a ABIA, o resultado do primeiro semestre já sinaliza perda de dinamismo nas vendas ao mercado americano, um cenário que tende a se agravar conforme as novas medidas comecem a valer. Em outras palavras: o tarifaço não é apenas uma ameaça futura para o setor de alimentos brasileiro. Já é um fato que aparece nos números.
A dimensão política do problema fica clara quando se olha para as exceções. Café solúvel, suco de laranja, carne bovina e diversos itens agroindustriais — produtos com peso relevante na pauta exportadora do setor — ficaram de fora da tarifa, segundo a lista anunciada pelas autoridades dos Estados Unidos. Mas essa concessão não elimina o risco. A ABIA sustenta que a medida mantém um cenário de incerteza tanto para a indústria brasileira quanto para as cadeias produtivas que integram os dois países.
Os números ajudam a dimensionar o que está em jogo. Com base nos embarques do primeiro semestre de 2026, um levantamento preliminar da entidade indica que pelo menos US$ 345 milhões em exportações correspondem a produtos totalmente fora da lista de exceções — ou seja, diretamente expostos à tarifa. Se forem somados os itens cuja exclusão depende de características específicas, ainda em análise, o valor potencialmente sujeito à cobrança pode chegar a aproximadamente US$ 445 milhões.
Diante desse quadro, a resposta da ABIA não é de confronto, mas de negociação. A entidade defende que manter o diálogo entre Brasil e Estados Unidos é o caminho mais adequado para preservar uma relação comercial que descreve como historicamente complementar entre os dois países. A avaliação da associação é direta: barreiras adicionais ao comércio tendem a gerar impactos negativos não só para os produtores e as indústrias, mas também para os consumidores dos dois lados — brasileiros e americanos.
A associação afirma que vai continuar acompanhando os desdobramentos das medidas anunciadas pelo governo americano, em conjunto com o governo brasileiro e com entidades representativas do setor produtivo, na tentativa de reduzir os efeitos do tarifaço sobre a cadeia de alimentos.
O peso econômico dessa discussão ajuda a explicar por que a ABIA trata o tema com urgência. Segundo a entidade, a indústria de alimentos responde por cerca de 10,9% do Produto Interno Bruto brasileiro, além de gerar milhões de empregos e representar uma parcela expressiva das exportações nacionais.
Um recuo de quase 17% nas vendas a um dos principais parceiros comerciais do país não é um dado isolado: é um sinal de alerta para uma cadeia que movimenta uma fatia relevante da economia brasileira — e que inclui, dentro desse universo mais amplo de alimentos, também os produtos lácteos, sujeitos à mesma incerteza comercial que atinge o restante do setor.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Acontece na Indústria






