O litro do leite está mais caro, mas isso não significa alívio para quem produz.
O preço médio pago ao produtor subiu de R$ 1,94 para R$ 2,60, um reajuste que, à primeira vista, parece animador. O problema é que o custo de produção também subiu e hoje gira em torno de R$ 2,20 por litro — uma margem apertada demais para garantir tranquilidade a médio prazo.
É esse descompasso que preocupa Armando Rabbers, presidente da Associação Brasileira de Criadores de Bovinos da Raça Holandesa. Durante a feira Agroleite, em Castro (PR), ele apontou que taxas de juros e preços dos combustíveis pesam diretamente sobre o lucro do produtor, tornando urgente reduzir custos sem abrir mão de investir na propriedade.
No Rio Grande do Sul, o cenário segue parecido: o preço projetado para julho é de R$ 2,50 por litro. Marcos Tang, presidente da Associação dos Criadores de Gado Holandês do estado, reconhece uma leve melhora, mas é cauteloso — para ele, os valores atuais ainda não garantem segurança econômica aos produtores no longo prazo.
Quem sente esse aperto na prática é João Galvão Prestes, à frente da Fazenda São Thomé, em Castro, onde 510 vacas produzem 23 mil litros de leite por dia. Segundo ele, o controle sanitário e os investimentos em genética são indispensáveis para manter o negócio competitivo, mas a alta nos insumos — especialmente na alimentação do rebanho — segue corroendo o resultado final.
Além do custo, falta gente. Jussara Liebel, produtora em Piraí do Sul (PR) e responsável pelo Recanto dos Passarinhos, referência em genética Jersey, conta que a dificuldade em encontrar mão de obra comprometida trava a expansão do rebanho. “Encontrar mão de obra que realmente se comprometa é desafiador. Em razão disso, não conseguimos expandir significativamente nossos rebanhos”, resume.
Em Minas Gerais, o produtor Fernando de Azevedo Reis observa o mesmo gargalo por outro ângulo: a nova geração tem cada vez menos interesse em trabalhar no campo, o que agrava a escassez de trabalhadores qualificados. Ele soma a isso outra preocupação, essa de fundo estrutural — a queda no consumo de leite no país.
Diante de custos altos, mão de obra escassa e consumo em queda, parte do setor já busca uma saída pela diversificação. Ágide Eduardo Meneguette, presidente do Sistema Faep, defende que investir na fabricação de queijos pode abrir uma nova frente de rentabilidade, especialmente para pequenos produtores — caminho estimulado pelo Prêmio Queijos do Paraná.
Hoje, dos 13,5 milhões de litros produzidos diariamente no estado, 6 milhões já são destinados à produção de queijo. Ainda assim, Meneguette alerta que a volatilidade no preço dos insumos exige que o setor discuta novas formas de precificação que protejam quem produz.
Para reverter a genética do problema — literalmente —, a associação liderada por Rabbers aposta em um banco de dados genômico capaz de identificar quais animais se adaptam melhor às condições locais, elevando produtividade e saúde do rebanho como resposta de longo prazo à pressão de custos.
O retrato que fica da Agroleite, em Castro, é o de um setor que melhora em alguns números, mas segue refém de uma equação que não fecha: preço melhor, custo maior, gente de menos.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Boca Noticias






