Quando o termômetro da Serra catarinense marca temperaturas negativas nas madrugadas de inverno, um prato específico passa a dominar os cardápios da região: a fondue.
O que começou como uma referência à gastronomia europeia se tornou, ao longo dos anos, um dos pratos mais identitários do inverno serrano, ao ponto de estar presente em praticamente todos os restaurantes da região.
A explicação para essa adesão é direta: o frio extremo empurra a gastronomia local para pratos quentes, calóricos e reconfortantes, e a fondue, com suas variações de queijo, carne e chocolate, encaixa perfeitamente nessa lógica.
Em 2025, os visitantes da Serra catarinense destinaram 36% de seus gastos à alimentação, o setor mais representativo entre todos os gastos turísticos da região, e a fondue tem papel central nesse número: é o prato que os turistas buscam, fotografam, recomendam e que os faz voltar no inverno seguinte.
O ingrediente que sustenta o prato
Nenhuma fondue da Serra catarinense se sustenta sem o queijo serrano, produzido com leite cru de vacas criadas nos campos de altitude da região, pelos mesmos produtores que enfrentam até -8°C nas manhãs de inverno. Derretido, esse queijo resulta em uma fondue encorpada e levemente ácida, com uma profundidade de sabor que nenhum queijo industrializado consegue replicar, segundo relatos da própria região.
O produto já conta com indicação geográfica e está em processo de reconhecimento como patrimônio cultural imaterial de Santa Catarina, o que reforça seu papel como ingrediente central, e não coadjuvante, da experiência gastronômica local.
A harmonização com os vinhos de altitude
A combinação da fondue de queijo serrano com os vinhos de altitude produzidos em São Joaquim, Campo Belo do Sul e Urupema elevou o prato a outro patamar dentro da gastronomia regional. Tintos encorpados como Merlot, Cabernet Sauvignon e Syrah, elaborados a poucos quilômetros das queijarias, criam com o queijo derretido uma harmonização que a região considera rara no cenário brasileiro.
O enólogo Leonardo Ferrari, da Vinícola Abreu Garcia, relaciona essa qualidade diretamente ao clima: a altitude, as noites frias e a amplitude térmica permitem uma maturação mais lenta e equilibrada da uva, o que resulta em vinhos mais precisos, elegantes e longevos, que combinam naturalmente com a gastronomia da Serra.
Mais que um prato, um ritual
Para o guia turístico Benito, de Bom Jardim da Serra, a fondue carrega uma dimensão que vai além da gastronomia.
Ele descreve o hábito local de reunir família e amigos ao redor de uma lareira ou de um fogão a lenha, um momento de aproximação e trocas que o povo serrano sabe cultivar como poucos. A panela no centro da mesa obriga as pessoas a ficarem juntas, a compartilharem o mesmo prato e a esperarem umas pelas outras, características que reforçam o papel social do prato na região.
Outras formas de queijo derretido
A tradição da fondue também abriu espaço para outras preparações com queijo serrano nos cardápios do inverno serrano. A raclette, técnica suíça de derreter o queijo na brasa e raspá-lo sobre batatas, legumes e embutidos, chegou à região nos últimos anos e encontrou no queijo serrano um ingrediente à altura da receita original.
Já o queijo na brasa, criação genuinamente local, consiste em colocar o queijo artesanal diretamente sobre a grelha, deixando-o derreter lentamente enquanto a carne assa ao lado.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por nd+






