Os ciberataques contra o setor de alimentos e bebidas deixaram de ser um risco pontual para se tornar uma ameaça estrutural em toda a cadeia — de fornecedores a varejistas, passando por indústrias e redes de foodservice.
E o alerta soa mais forte para quem opera com produtos perecíveis: entre os sistemas mais visados estão justamente os de rastreabilidade e monitoramento de temperatura, além dos controles de produção, segundo o levantamento.
Quando esses sistemas são comprometidos, o impacto vai muito além de uma falha de TI. Empresas podem ser forçadas a interromper a produção, atrasar embarques ou realizar retiradas de produtos do mercado enquanto verificam a integridade de seus registros e processos — uma cadeia de consequências que atinge diretamente operações que dependem de continuidade, como as ligadas à produção e distribuição de lácteos.
“A indústria depende da entrega just-in-time de produtos e serviços essenciais”, explica Jonathan Braley, diretor da empresa de segurança Food and Ag-ISAC. Segundo ele, essa lógica operacional faz com que o impacto de um ataque de ransomware seja sentido quase imediatamente: “Uma paralisação ou pausa na produção pode romper cadeias de suprimento e causar desafios reputacionais e financeiros para a organização vítima.”
Os números reforçam a escalada. A Food and Ag-ISAC rastreou 220 ataques de ransomware contra o setor em 2026, praticados por 46 grupos diferentes — um volume que já se aproxima dos 265 incidentes registrados em todo o ano de 2025. Entre os alvos recentes estão nomes de peso como Coca-Cola e Heineken, além da rede de fast-food Chick-fil-A, atingida em junho. O dado deixa claro que nem o porte nem o segmento — indústria ou serviço — funcionam como proteção.
Por trás desse avanço está a própria digitalização acelerada do setor. Plantas de fabricação, redes logísticas, bancos de dados de clientes e sistemas de pagamento hoje dependem fortemente de tecnologia para funcionar — e cada nova camada digital abre uma porta a mais para criminosos.
Empresas de alimentos e bebidas se tornaram alvos especialmente atrativos justamente por operarem cadeias de suprimento complexas e por dependerem de produção contínua: qualquer parada gera perdas financeiras, desperdício de produtos e transtornos a clientes, o que aumenta a pressão para pagar resgates rapidamente e retomar a operação.
O ransomware — ataque em que criminosos criptografam sistemas críticos e exigem pagamento para liberar o acesso — segue como a principal ameaça, mas não é a única. Especialistas apontam que roubo de dados, comprometimento de cadeias de suprimento e fraudes por e-mail corporativo também estão em ascensão. Varejistas e operadores de foodservice enfrentam ainda o risco de vazamento de dados de consumidores, capaz de comprometer a reputação e a confiança construídas junto ao público.
“Os cibercriminosos não miram apenas bancos ou governos”, resume Dray Agha, gerente sênior de operações de segurança da plataforma de defesa cibernética Huntress.
Diante desse cenário, empresas do setor têm reforçado seus investimentos em segurança, com foco em monitoramento avançado, gestão de riscos na cadeia de suprimentos e treinamento de funcionários. Exigências regulatórias e de clientes também têm impulsionado esse movimento: cada vez mais, fabricantes precisam comprovar práticas robustas de segurança para fechar contratos ou obter cobertura de seguros junto a clientes, seguradoras e reguladores.
A Food and Ag-ISAC lista três medidas centrais para reduzir a exposição ao risco: a adoção de autenticação multifator (MFA) — que exige um PIN, aplicativo de autenticação ou outro método de verificação além da senha —, a aplicação ágil de patches de segurança, já que agentes de ameaça exploram vulnerabilidades poucas horas após sua divulgação, e a segmentação entre ambientes de TI e de tecnologia operacional (OT), que impede que um sistema corporativo comprometido sirva de porta de entrada para os ambientes de produção.
Com a adoção crescente de fábricas inteligentes, automação, plataformas em nuvem e cadeias de suprimento interconectadas, a proteção da infraestrutura digital passa a ter o mesmo peso da proteção dos ativos físicos.
E, segundo os especialistas consultados, a ameaça está longe de se estabilizar: os criminosos seguem aperfeiçoando técnicas para explorar vulnerabilidades e atingir infraestruturas críticas — o que sugere que esse é apenas o início de um ciclo de ataques mais sofisticados contra o setor.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Dairy Reporter






