Encerramos o primeiro ciclo de Dairy Protagonists com a parte final da nossa conversa exclusiva com Piercristiano Brazzale.
Nesta edição, Brazzale identifica as duas regiões que, em sua avaliação, impulsionarão o crescimento global do setor lácteo na próxima década e explica por que o boom mundial do consumo de proteínas é uma tendência que continuará se intensificando.
– Estamos observando que potências tradicionais do setor lácteo, como a Nova Zelândia e a União Europeia, estão atingindo seus limites de produção. Onde você acredita que se concentrará o crescimento da produção de leite no futuro?
P. Brazzale: “Sim, a Nova Zelândia e a União Europeia chegaram a esses limites e continuam crescendo, embora em ritmo cada vez mais lento, graças ao aumento da produtividade. A redução dos rebanhos, combinada aos ganhos de produtividade, tem sido fundamental: eficiência na produção e eficiência na gestão das propriedades rurais.
Quanto aos locais onde o crescimento futuro estará concentrado, vejo um enorme potencial na Índia. Atualmente, o país tem cerca de 300 milhões de cabeças de búfalos e bovinos, sendo aproximadamente 200 milhões de bovinos e 100 milhões de búfalos, 80 milhões de propriedades leiteiras e uma produtividade média de apenas 6 litros por animal. Há uma enorme diferença a ser superada.
Os indianos estão trabalhando intensamente em genética e alimentação. Vale lembrar que simplesmente utilizar o touro adequado para determinada vaca pode dobrar a produção apenas por meio da genética. Passar de 6 para 12 litros é uma questão de tempo.
E não podemos esquecer que a Índia produz atualmente quase 240 milhões de toneladas. De aproximadamente 1 bilhão de toneladas de leite produzidas mundialmente em 2025, 240 milhões vêm da Índia. Isso significa que cerca de 25% do leite do mundo é produzido na Índia, com uma produtividade média de apenas 6 litros por animal. É possível perceber o enorme potencial que existe ali.
Outra grande fonte de potencial é a América do Sul. Já existem regiões com alto potencial e elevada produtividade, como algumas áreas do Chile, da Argentina, do Uruguai e até do Brasil. Essas regiões já apresentam bons resultados e contam com propriedades de alta produtividade, embora ainda haja bastante espaço para crescer em toda a América do Sul.
E vou repetir o que disse anteriormente: as projeções de todas as principais instituições, da FAO ao Rabobank, apontam para um déficit de leite nos mercados mundiais, especificamente no comércio internacional, de cerca de 30 milhões de toneladas até 2030. Até mesmo o USDA prevê uma escassez de leite, porque o consumo de proteínas de origem animal continua aumentando.
Vocês já conhecem o fenômeno dos GLP-1, mas existe também uma tendência social mais ampla de consumir alimentos enriquecidos com proteínas. Hoje, os jovens consomem bebidas e alimentos enriquecidos com proteínas, e grande parte dessas proteínas vem do leite, especialmente do soro de leite.
Isso também explica os preços extremamente elevados do soro e do soro de leite em pó nos mercados internacionais: existe uma demanda forte e crescente por parte dos consumidores.
E, quando falamos da Ásia, nem precisamos ir muito longe. No Japão e na China, o consumo de produtos enriquecidos com proteínas lácteas e proteínas do soro de leite tornou-se uma tendência. Basta visitar supermercados chineses e japoneses para encontrar uma enorme variedade de produtos enriquecidos com proteínas.
Portanto, voltando diretamente à pergunta sobre o crescimento, vejo esse potencial na China, desculpem, na Índia e na América do Sul.
A China enfrenta problemas estruturais. Nos últimos anos, investiu enormes quantias em propriedades rurais e infraestrutura, mas enfrenta limitações de disponibilidade de terras. Por isso, precisa comprar grandes volumes de alimentos para os animais no exterior, o que eleva demais os custos de produção.
A América do Sul, por outro lado, tem custos de produção muito baixos, assim como a Nova Zelândia. Mas a região sul-americana conta com uma vantagem competitiva: os baixos custos decorrem da abundância de terras e da disponibilidade de alimentos para as vacas.
A Índia tem a vantagem dos baixos custos de mão de obra e também uma vantagem cultural, já que sua cultura está profundamente ligada ao leite. Para os indianos, o leite e a atividade leiteira fazem parte da vida cotidiana, o que lhes confere uma vantagem competitiva. Naturalmente, a disponibilidade de terras na Índia é relativa.
Assim, em termos de competitividade, a América do Sul, na minha opinião, é onde o crescimento pode ser maior, embora a Índia tenha um potencial enorme devido à sua baixa produtividade.”
– Por fim, estamos testemunhando um verdadeiro boom mundial das proteínas, no qual os lácteos desempenham um papel central. Você acredita que essa é uma tendência passageira ou que continuará se intensificando?
P. Brazzale: “Como já disse, o consumo de proteínas é uma tendência imparável. Na minha opinião, ela continuará avançando, impulsionada principalmente pelos países em desenvolvimento.
Vejamos um exemplo: a China já é um país desenvolvido, mas apresenta uma tendência demográfica oposta à de regiões desenvolvidas, como a Europa e os Estados Unidos. Sua população mais jovem consome muito mais produtos de origem animal do que a população mais velha.
Isso significa que uma enorme onda de consumidores está entrando no mercado chinês com uma tendência de consumo baseada em proteínas, especialmente em produtos funcionais.
Esse é o ponto-chave: produtos funcionais destinados a categorias de pessoas com necessidades específicas. Por isso, representam uma tendência imparável e, dentro desse segmento, os produtos à base de proteínas são os que têm maior espaço para crescer.
Esse consumo também está aumentando significativamente em mercados maduros, como a Europa e os Estados Unidos, em parte devido às tendências entre os jovens e as pessoas com mais de 60 anos. Há uma busca crescente, que é ao mesmo tempo uma tendência e uma necessidade real, por proteínas essenciais para prolongar tanto a expectativa de vida quanto os anos vividos com saúde.
Naturalmente, também existe um enorme potencial em regiões em desenvolvimento, como a África, caso o poder de compra aumente. Os institutos econômicos, porém, têm algumas dúvidas quanto à possibilidade de um crescimento expressivo desse poder aquisitivo.
O potencial africano é particularmente significativo porque a população do continente cresce em um ritmo muito acelerado. Estima-se que, até 2050, a África terá acrescentado sozinha mais 1 bilhão de pessoas à sua população.
Considero esse fator fundamental. Todas as projeções de crescimento populacional mundial indicam que, dos atuais aproximadamente 8,2 bilhões de habitantes, provavelmente ultrapassaremos os 10 bilhões até 2050, mesmo com uma desaceleração da taxa de crescimento.
De qualquer forma, a população mundial continuará aumentando, e essas pessoas consumirão alimentos de acordo com seu poder aquisitivo, mas certamente consumirão mais proteínas. Por isso, projeta-se que o consumo de proteínas de origem animal cresça cerca de 20% até 2050, em termos absolutos.
Isso significa que precisaremos produzir entre 50% e 70% mais alimentos até 2050, em comparação com 2020, respeitando os recursos naturais. Esse é o desafio: produzir mais utilizando menos recursos naturais ou, pelo menos, utilizando-os da mesma forma que fazemos atualmente. Isso exige inovação e eficiência nos processos de produção agrícola.
Para concluir, sou muito otimista em relação ao futuro do setor lácteo, porque há muito espaço para crescer, mas, acima de tudo, porque haverá uma demanda enorme e uma necessidade crescente de proteínas provenientes dos produtos lácteos.
E vale lembrar: a vaca é uma excelente conversora de produtos que não são comestíveis para os seres humanos em alimentos de elevado valor nutricional.
Durante o Congresso Mundial do Leite, em Paris, Badi Besbes, da FAO, mostrou que atualmente cerca de 95% do que é fornecido às vacas leiteiras não é utilizado na alimentação humana.
Se considerarmos apenas as forragens, que não são comestíveis para os seres humanos, elas representam entre 50% e 60% da dieta dos animais. Mas também existem os subprodutos.
Por exemplo, somos acusados de utilizar terras para cultivar soja e, assim, retirar áreas que poderiam ser destinadas à produção de alimentos para os seres humanos. Nada poderia estar mais distante da realidade.
Que parte da soja é utilizada na alimentação das vacas? Os subprodutos: o farelo resultante da extração do óleo da soja, depois da retirada da lecitina e de diferentes proteínas. O que sobra é um resíduo que, de outra forma, seria descartado como lixo ou utilizado como fertilizante, mas que acaba sendo aproveitado na alimentação das vacas.
Isso confirma o que Badi Besbes, da FAO, afirmou em Paris, em 2024: 95% do que as vacas leiteiras consomem não é utilizado na alimentação humana. Trata-se de um estudo baseado na metodologia GLEAM, portanto, certificado. Esse é um ponto importante.
Dito isso, sou muito otimista e, sem dúvida, se estivesse pensando em investir em uma propriedade leiteira, eu investiria. Ou melhor, hoje estou obviamente ocupado com outras atividades, mas investir em uma propriedade leiteira é, sem dúvida, um investimento seguro, com grande potencial de valorização. Investiria em uma propriedade leiteira, mas também no setor lácteo de modo geral.”
*Nota editorial / Isenção de responsabilidade: as opiniões expressas são de Piercristiano Brazzale em caráter pessoal e não devem ser interpretadas como posições da Federação Internacional do Leite (IDF), de seus comitês ou de seus membros.
Quem é Piercristiano Brazzale
Piercristiano Brazzale foi presidente da Federação Internacional do Leite (IDF) de 2020 a 2024, cargo atualmente ocupado por Gilles Froment, e atua como representante ambiental no Comitê de Coordenação de Ciência e Programa (SPCC) da entidade.
Além de sua atuação em organizações internacionais do setor lácteo, é coproprietário e CEO da Brazzale S.p.A., a mais antiga empresa de laticínios em atividade na Itália, representando a sétima geração à frente da empresa familiar, fundada em 1784.
Esta publicação encerra nossa entrevista exclusiva em três partes com Piercristiano Brazzale para a série Dairy Protagonists.
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