O mercado de leite UHT entrou em 2025 carregando o peso de uma oferta crescente de leite e terminou o ano enfrentando uma realidade pouco comum para uma das categorias mais relevantes do setor lácteo brasileiro: manutenção do volume, mas forte perda de valor.
Segundo avaliação apresentada pela Associação Brasileira de Lácteos Longa Vida (ABLV), o segmento viveu o pior ano de sua história recente. Embora tenha preservado o volume conquistado nos anos anteriores, a categoria perdeu valor ao longo de todo o período, em um ambiente marcado pelo excesso de oferta e pela dificuldade de sustentação dos preços.
O principal fator por trás desse movimento foi o avanço da disponibilidade de leite. A produção primária cresceu acima de 8%, enquanto as importações de leite equivalente, na forma de leite em pó e queijos, permaneceram em níveis elevados. O resultado foi um mercado com excesso de produto e perda das referências tradicionais de preço, especialmente para o leite UHT.
Nesse contexto, a pressão se deslocou rapidamente para a indústria. A expectativa de preços mais baixos estimulou uma postura mais cautelosa nas compras, enquanto o varejo ampliou sua pressão comercial sobre os fornecedores. Ao mesmo tempo, a renda da população seguiu disputada e o elevado endividamento das famílias limitou a capacidade de absorção da oferta disponível.
Os reflexos apareceram ao longo de toda a cadeia. Indicadores citados pela ABLV mostram que os preços da indústria para o leite UHT encerraram o ano ao redor de R$ 3,15, patamar 22% inferior ao observado no mesmo período de 2024. O varejo também registrou retração no faturamento, impulsionada por promoções frequentes do produto. Na sequência, a queda chegou ao campo, com os preços pagos ao produtor recuando de forma acelerada a partir de maio.
Do ponto de vista produtivo, o segmento praticamente estacionou. O volume de leite UHT avançou apenas 0,3% em 2025, alcançando 6,8 bilhões de litros. Ainda assim, a categoria manteve sua posição dominante no consumo de leite líquido, com participação próxima de 90% do mercado.
A deterioração do cenário foi além do leite líquido. Outros produtos UHT também perderam valor ao longo do ano. O creme de leite, por exemplo, sofreu os efeitos do aumento da disponibilidade de gordura láctea decorrente da maior oferta de matéria-prima para processamento.
Para a ABLV, o problema central não foi apenas o crescimento da produção, mas a incapacidade de o mercado absorver ou direcionar os excedentes. Sem uma saída consistente para volumes adicionais, os estoques aumentaram e a pressão sobre preços se espalhou por toda a cadeia. Entre os segmentos mais afetados, o leite UHT se destacou justamente por ter sofrido uma perda de valor persistente, que se estendeu até os primeiros meses de 2026.
O resultado deixa um sinal relevante para produtores, cooperativas e indústrias. O leite UHT continua sendo a principal categoria do mercado brasileiro, mas sua capacidade de funcionar como âncora de rentabilidade ficou mais limitada em um ambiente de abundância de oferta. Em 2025, o desafio deixou de ser produzir mais. Passou a ser encontrar valor para um volume cada vez maior de leite disponível.






