O debate sobre as importações de leite em pó do Mercosul ganhou uma nova dimensão no Brasil.
Após a suspensão temporária das tarifas antidumping contra produtos da Argentina e do Uruguai, representantes da cadeia leiteira passaram a concentrar atenção não apenas na defesa comercial, mas também no fortalecimento dos mecanismos de fiscalização das operações de importação.
A mudança de foco ocorre depois que o Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex), vinculado à Camex, decidiu adiar a aplicação das medidas antidumping, apesar de o processo conduzido pelo Departamento de Defesa Comercial (Decom) ter reconhecido oficialmente a existência de dumping nas exportações destinadas ao mercado brasileiro.
A investigação identificou margens superiores a 60% nas operações analisadas e apontou que o leite em pó importado chegava ao Brasil com preços significativamente inferiores aos praticados nos mercados internos dos países de origem. O processo teve origem em um pedido formal da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Mesmo com esse reconhecimento técnico, a Camex optou por aprofundar a análise dos possíveis impactos da medida sobre a inflação dos alimentos e sobre as relações comerciais dentro do Mercosul antes de deliberar sobre a aplicação definitiva das tarifas.
A decisão provocou reação da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), da CNA e de representantes da produção leiteira. As entidades argumentam que a manutenção das importações sem mecanismos imediatos de defesa comercial continua pressionando a rentabilidade da atividade em um momento já marcado por dificuldades econômicas para os produtores.
Nesse contexto, uma nova frente de atuação começou a ganhar relevância. A Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados aprovou recentemente uma Proposta de Fiscalização e Controle (PFC) destinada a analisar os impactos das importações sobre a cadeia produtiva nacional. A iniciativa amplia o debate para além da discussão tarifária e sinaliza maior atenção às condições em que esses produtos chegam ao mercado brasileiro.
Para o setor, a fiscalização surge como instrumento complementar enquanto a definição sobre as tarifas permanece em aberto. Ao mesmo tempo, lideranças ligadas à produção prometem intensificar a articulação política junto ao Congresso Nacional e ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
A disputa também evidencia um equilíbrio delicado enfrentado pelo governo federal. De um lado, o reconhecimento oficial do dumping fortalece os argumentos apresentados por entidades da cadeia leiteira em defesa de medidas de proteção comercial. De outro, a Camex afirma considerar os possíveis reflexos de uma intervenção imediata sobre os preços dos alimentos e sobre as relações entre os países do bloco regional.
A próxima reunião do Gecex, prevista para 25 de junho, deverá recolocar o tema no centro das discussões. Até lá, a pressão do setor tende a se concentrar tanto na retomada das medidas antidumping quanto no avanço dos mecanismos de fiscalização.
Mais do que uma discussão sobre tarifas, o caso passou a refletir um debate mais amplo sobre quais instrumentos serão utilizados para administrar as tensões entre produção nacional, comércio regional e política de preços. A decisão final da Camex poderá indicar não apenas o futuro das medidas antidumping, mas também qual será o peso da fiscalização na condução dessa disputa.
*Produzido pela eDairyNews, com informações publicadas por Gazeta do Paraná






