A recente decisão do governo federal de suspender a aplicação de medidas antidumping sobre o leite em pó importado da Argentina e do Uruguai reacendeu um debate de longa data no agronegócio brasileiro.
Embora o Brasil se posicione como um dos maiores produtores globais de lácteos, com uma produção anual estimada em 35 bilhões de litros, a dependência de insumos externos permanece como um ponto de fricção constante na economia nacional.
Dinâmica do mercado e a dependência de importações
O fluxo de importação de leite em pó consolidou-se desde a década de 1990, impulsionado pela busca da indústria por preços mais competitivos. Empresas do setor utilizam o produto industrializado como matéria-prima essencial para a fabricação de iogurtes, bebidas lácteas e queijos, visando a redução de custos operacionais e a manutenção de preços finais acessíveis ao consumidor.
A proximidade geográfica com os parceiros do Mercosul facilita o escoamento, enquanto a ausência de tarifas de importação entre os países do bloco torna o produto vizinho financeiramente atraente. Esse cenário, contudo, gera um desequilíbrio que afeta diretamente a rentabilidade dos pecuaristas brasileiros, que enfrentam custos elevados de produção e uma concorrência que consideram desleal.
Impactos na cadeia produtiva e o papel das entidades
Representantes do setor, incluindo a Associação Brasileira de Criadores de Girolando, a CNA e a FPA, manifestaram forte descontentamento com a suspensão das tarifas. Segundo Alexandre Lacerda, presidente da Girolando, a entrada crescente de leite estrangeiro tem desmotivado investimentos e forçado produtores a abandonar a atividade leiteira diante da dificuldade de competir com valores subsidiados.
Dados da Secex indicam uma tendência de alta nas compras externas, que cresceram 66% entre 2023 e 2025, atingindo 2,2 bilhões de litros no último ano. Nos primeiros meses de 2026, o volume importado já superou a marca de 320 milhões de litros, pressionando ainda mais o mercado interno em um momento de custos elevados com ração e insumos.
O leite em pó como estoque estratégico
Para a indústria, o leite em pó atua como um estoque estratégico indispensável, dada a sua longa vida útil e versatilidade de aplicação. Enquanto o leite fluido exige uma logística imediata e cadeia de frio rigorosa, o produto em pó permite maior flexibilidade no planejamento industrial e na reconstituição de derivados, garantindo o abastecimento em períodos de entressafra.
Contudo, a CNA reforça que continuará em diálogo com o governo para defender a implementação de medidas que protejam quase 1 milhão de produtores nacionais. O objetivo é equilibrar a necessidade de suprimento da indústria com a sobrevivência econômica do produtor rural, que lida com juros altos e desafios estruturais na operação diária.
As informações são de São Bento em Foco






